“Cemitério Maldito”,
(Pet semetery)
de Mary Lambert
(1989)

 

 

Eixo Temático

Nas sociedades do sociometabolismo do capital sob o imperío do fetichismo da mercadoria, cria-se um campo de irracionalidade social propicio para o surgimento do grotesco. Na era da barbarie social, põe-se com intensidade e amplitude, espectros regressivos da sociabilidade humano-genérica, que fazem surgir novos modos de alienação humana expressos na figura imagética de mortos-vivos, individualidades (des)humanizadas radicalmente deformadas que aparecem como personas do grotesco.

Tema-chave: capitalismo, estranhamento, fetichismo social, sociometabolismo do capital

Filmes relacionados: "Nosferatu", de F.W. Murnau; "A noite dos mortos-vivos", de Georges Romero.


Análise do Filme

 

A família Creed muda-se para uma nova casa em Ludlow, no estado norte-americano do Maine, e rapidamente fazem amizade com o novo vizinho, um velho homem chamado Jud Crandall. É este novo vizinho que conta a eles sobre o "cemitério" de animais, feitos por crianças tristes (cujos animais foram atropelados na auto-estrada). Mas tarde, quando o gato de estimação da pequena Creed morre atropelado na auto-estrada, Jud Crandall conta a Louis Creed, o pai da família Creed, sobre um outro cemitério que localiza-se atrás do "cemitério" de animais, o cemitério MicMac cujo solo possui a propriedade de ressuscitar mortos (os “micmacs" eram os índios nativos norte-americanos espoliados de suas terras pelos colonizadores brancos).

As primeiras cenas do filme mostram a chegada da família Creed a sua nova casa ao lado da perigosa auto-estrada onde trafegam caminhões pesados em alta velocidade. Por ela não passam outros veículos - só caminhões pesados. Como símbolo do progresso capitalista, a auto-estrada torna-se um elemento de risco aterrorizante no filme. O perigo da auto-estrada revela-se logo nas primeiras cenas quando Gage Creed, o filho pequeno dos Creed, dirige-se inadvertidamente para a autoestrada e é quase atropelado por um caminhão pesado (o que acontecerá mais tarde). É Jud Crandall que o salva.

A auto-estrada é quase um personagem-fetiche do filme tendo em vista que ela organiza vários elementos da narrativa. Por exemplo, os animais mortos na auto-estrada são enterrados no cemitério de animais de estimação (pet semitery - que dá nome ao título original do filme, inclusive cemitery grafado de forma incorreta); e logo acima do pet cemitery, está o cemitério MicMac, local sagrado e santuário maldito dos habitantes ancestrais daquelas terras (os micmacs) cujo solo possui propriedades fantásticas: ressuscita mortos. É a morte do gatinho da família Creed, atropelado na auto-estrada, e a atitude do velho Jud Crandall - que enterra o gatinho no cemiterio MicMac para ressuscita-lo - que desencadeiam a trama narrativa tendo em vista que, a partir dai, Louis Creed, o pai, que é médico em Ludlow, toma conhecimento das propriedades sagradas e malditas do solo do cemitério MicMac.

A cena do quase-atropelamento de Gage, logo no inicio do filme, coloca o primeiro elemento de terror do filme: o terror da auto-estrada. Nesse caso, trata-se propriamente de terror: o estranhamento bizarro provocado por coisas terrenas; mas não horror propriamente dito: o bizarro estranhado que surge do mundo fantástico. No quase-atropelamento de Gage no inicio do filme, não existem elementos de horror sobrenatural, mas sim, riscos inerentes da alta modernidade do capital. Na verdade, a auto-estrada é o símbolo da modernidade americanista, fato histórico denso e estranhado que caracteriza o mundo da automobilidade capitalista.

Entretanto, os fatos sobrenaturais que caracterizam o filme "Cemitério Maldito" como filme de horror, vem a seguir com o atendimento pelo Dr. Louis Creed de um jovem bastante machucado, provavelmente atropelado na auto-estrada, que logo falece no ambulatório de Ludlow e que, de repente, aparece como visão sobrenatural para o Dr. Creed - trata-se de Victor Pascow, cuja aparição prenuncia a maldição do cemitério MicMac. O espectro de Pascow recomenda ao Dr. Louis Creed para não ir além do cemitério dos animais. Mas, conduzido pelo vizinho Jud Crandall, que vai enterrar o gato Church no cemitério MicMac (para o ressuscitar), o Dr. Louis Creed desobedece a ordem do fantasma de Victor Pascow e ultrapassa a linha vermelha. É importante salientar que Pascow aparecerá no decorrer de todo filme, sempre prenunciando desgraças e avisando para não utilizarem o solo sagrado do cemitério MicMac. Ele é quase um “anjo do Inferno", invisível para os outros, mas visível apenas para Louis Creed. Victor Pascow, como profeta-zumbie, adverte Louis Creed, mas sem poder intervir no destino maldito do personagem.

O filme possui um conjunto de elementos bizarros tais como a morte da empregada domestica Missy Dandridge, que, diante do sofrimento com o câncer, comete suicídio. Ao mesmo tempo, Rachel Creed, mãe da família Creed, relata a morte de sua irmã que morreu de uma doença terminal. Rachel está imersa em consciência de culpa, traumatizada pela impotência de acompanhar a desgraça sem poder fazer nada. Portanto, a expressão da irmã adoecida e esquálida de Rachel e o suicídio de Missy são elementos de terror bizarro e desgraças humanas presentes no filme.


Outro elemento de horror no filme - depois da aparição espectral de Victor Pascow - ocorre com a morte e ressurreição grotesca do gato Church, o gato da família Creed. Não se trata apenas da ressurreição dos mortos, mas sim, de uma ressurreição grotesca - o morto-vivo não é apenas o morto ressuscitado, mas um morto que se vinga dos vivos por ter sido trazido à vida como maldição. Esta é a natureza dos mortos-vivos no filme. Após fazer o gato Church ressuscitar, o vizinho Jud Crandall relata a natureza grotesca dos mortos-vivo ressuscitados. Na verdade, trata-se de zombies, morto-vivos que horrorizam os vivos, amaldiçoando-os e matando-os. O zumbie no filme "Cemitério Maldito" é um morto ressuscitado ressentido e enlouquecido por ter sido revivificado. Nos filmes de horror, a obsessão dos zumbies é matar os vivos.

O filme “Cemiterio Maldito" expoe a natureza efetiva de um dos personagens bizarros do horror grotesco: os morto-vivos ou zumbies - eles não são apenas mortos ressuscitados (como imaginava Louis Creed), mas mortos-vivos transtornados e obcecados por matar seu próximo, talvez como modo de expressar “amor". No mundo dos morto-vivos, a inversão de afetos expressa em si, a inversão ontológica provocada pela grotesca revivificação. A transgressão ontológica (a condição de morto-vivo) provoca a inversão de afetos. Zumbies matam os vivos para expressar amor (Karl Marx n´"O Capital" [Vol.I, p.312 - edição Nova Cultural], certa feita observou que o capital é "um monstro animado que começa a trabalhar como se tivesse amor no corpo").

Estamos no plano da fantasia do horror. Efetivamente, é impossível ressuscitar mortos. Portanto, mortos-ressuscitados não são pessoas vivas que retornam à condição de existência passada. A construção fantástica do horror quer nos dizer apenas, por meio das fábulas dos morto-vivos, que, a rigor, o passado não volta jamais. O que significa que, querer fazê-lo voltar - ou faze-lo voltar efetivamente - é reviver outra coisa, como farsa ou como tragédia - como diria Karl Marx (no livro "O 18 Brumário de Luis Bonaparte").


A morte de Gage, filho pequeno dos Creed, atropelado por um caminhão na auto-estrada, transtornou a família. A narrativa filmica alcança um novo patamar de horror. Percebemos novos elementos da subjetividade estranhada pelas condições do mundo social do grotesco. Por exemplo, o pai Louis Creed sente-se culpado pois não cuidou do filho no momento do atropelamento na auto-estrada. Na verdade, culpa e horror são elementos compatíveis na narrativa de "Cemitério Maldito". Tanto Rachel, quanto Louis Creed, são personagens imersos em sentimentos de culpa. Por exemplo, Rachel sente-se culpada pela morte da irmã Zelda; Louis sente-se culpado pela morte do filho pequeno Gage. Na verdade, o sentimento de culpa predispõe personalidades estranhadas para a experiência fantástica do horror.

Diante do atroz sentimento de culpa, o pai Louis Creed, lembra-se que é possível ressuscitar o filho morto no solo sagrado do cemitério dos MicMac. O velho Jud Crandall e o espectro de Victor Pascow o previnem dos riscos terríveis: o morto-vivo não seria o mesmo ser humano ressuscitado. Inclusive, Jud Crandall relata o que ocorreu no passado com um vizinho, cujo filho ressuscitado apareceu como um monstro canibal. Mas a obsessão de Louis Creed em ressuscitar o filho, atormentado pelo sentimento de culpa, é mais forte e ele - desprezando as advertências - leva adiante a idéia de ressuscitar Gage.

 

O final do filme é o ápice do horror grotesco: o pequeno Gage, morto-vivo ressuscitado, trucida o vizinho Jud Crandall, que, deste modo, paga pela sua atitude em abrir a “caixa de Pandora" (foi Crandall quem revelou a Louis Creed o segredo do cemitério maldito, ressuscitando o gato Church); e, depois Gage mata a própria mãe - Rachel. O pequeno zumbie quer matar também o pai, mas não consegue. Louis, sabendo da desgraça cometida por Gage, mata o filho zumbie e depois, transtornado pela desgraça da qual ele próprio é culpado, decide ressuscitar a mulher Rachel, acreditando que desta vez, a história pode ser diferente. Mas um erro leva irremediavelmente a outro erro. No final, Rachel, tornada zumbie, dirige-se ao encontro de Louis, que a beija. De imediato, a mulher-zumbie pega uma faca e o trucida, vingando-se pelo fato dele ser responsável por dar-lhe de novo a vida. No mundo dos zumbies, viver é um inferno que deve ser reparado, exterminando os vivos mais próximos.

A tragédia do ingênuo médico Louis Creed é que ele insiste e persiste em ressuscitar mortos que - enquanto morto-vivos ou zumbies - o frustram terrivelmente. Como vimos no decorrer do filme, primeiro, o filho Gage, que mata o vizinho Jud Crandall e a própria mãe: Rachel Creed; e depois Rachel Creed, a mãe, morta pelo filho Gage e ressuscitada pelo esposo, que finalmente mata Louis - num gesto grotesco de amor.

 


Como vimos, a trama narrativa do filme, baseada no romance de horror de Stephen King, que escreveu também o roteiro do filme, utiliza-se de elementos clássicos contidos no filmes de horror (o tema da volta de mortos-vivos, a presença da tradição ancestral violada que retorna como maldição, a presença do moderno como forca impessoal - a auto-estrada). A exposição no filme de corpos dilacerados banaliza a morte. Ao mesmo tempo, a superficialidade dos personagens esvazia não apenas seus conflitos íntimos, mas retira-lhes a dimensão histórico-social. Falta-lhes vias de perspectiva histórica. Mas esta é a natureza fetichizada dos filmes de horror. O universo narrativo é absolutamente fechado, isto é, ensimesmado na fantasia persecutória. Dentro deste universo fechado do horror, cria-se, no plano do reflexo estético, um microcosmo de exposição da barbárie social em sua dimensão grotesca. Por isso, a desumanização grotesca expressa, por exemplo, pelo fenomeno estético da figura do zumbie, que caracteriza o conteúdo dramático dos filmes de horror, reproduz, no plano do fantástico, o mundo concreto da miséria humana do capital.

 


Giovanni Alves (2014)