“A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforo”,
(Tulitikkutehtaan tytto)
de Aki Kauriusmaki
(1990)

 

 

Eixo Temático

Nas sociedades do modo de produção capitalista, a exploração articula-se com a espoliação tanto dentro dos locais de trabalho como fora das empresas capitalistas, no âmbito do tempo de vida de homens e mulheres que trabalham. Explorão e espoliação compõem o sociometabolismo do capital que, nas condições da barbarie social, assumem dimensões perversas e irracionais, levando os sujeitos sociais a resistir ou dar respostas, muitas vezes, no plano da contingencia, de caráter irracional.

Tema-chave: capitalismo, exploração e espoliação como modo de metabolismo social

Filmes relacionados: "O Corte", de Costa-Gavras; "Um Dia de Fúria", de Joel Schumacher.


Análise do Filme

 

O filme “A garota da fábrica de caixas de fósforo", do finlandês Aki Kauriusmaki começa com a exposição de cenas do interior da fábrica: o sistema de máquinas em movimento com sua sonoridade persistente e monótona e a jovem operária na linha de produção vigiando ou inspecionando as pequenas caixas de fósforo transportadas pela esteira de produção. Trata-se de uma fabrica de caixas de fósforo altamente automatizada constituída em sua maioria, na linha de produção, por mulheres. A exposição do local da exploração inclui também, apresentar, mais tarde, como momento derradeiro da exploração da força de trabalho, a fila de operárias recebendo o salário. Enfim, a fábrica é o local da exploração ou extração do mais-valor que caracteriza o modo de produção capitalista. Nela se destacam todos os elementos categoriais de produção do capital propriamente dito. Kauriusmaki faz o movimento de exposição inverso de Karl Marx no livro “O Capital - Livro 1": começa com a exposição do local de produção e depois dirige-se para o âmbito da circulação de mercadorias. A garota do filme é uma operária explorada pelo capital.

Ao expor o território da produção - produção altamente mecanizada - ex-põe-se a categoria da exploração. Entretanto, percebemos que o foco do filme de Amir Kauriusmaki é a vida cotidiana da jovem trabalhadora Iris nas atividades do lar, onde ajuda a mãe no trabalho domestico, e nos momentos de diversão na balada noturna onde, solitária, aguarda o cortejo de alguém. Mas naquela noite, ninguém a convidou para dançar. No dia seguinte, inquieta com a solidão, decide comprar um novo vestido para sair a noite. Ao receber o salário, compra o vestido.

Aos poucos percebemos que Iris não é apenas explorada pelo capital na fabrica, mas é espoliada pelos familiares. Ocorre uma passagem da categoria de exploração para a categoria de espoliação. Por exemplo, a garota da fabrica de caixas de fósforo transfere a maior parte do salário do mês para a família. Ao comprar o vestido para sair a noite, ela é repreendida pela mãe que a obriga a devolver a mercadoria. A mãe exclama: “Vagabunda!". Entretanto, a garota queria apenas mostrar-se mais atraente na balada noturna. O filme de Kauriusmaki é um filme de poucos diálogos. Ressalta-se com vigor a solidão na vida cotidiana da garota da fábrica.

A categoria de espoliação pertence à esfera da circulação de mercadorias, sendo, nesse caso, complementar à categoria de exploração que ocorre na esfera da produção de mercadorias. Por exemplo, a espoliação da garota ocorre no trabalho domestico - trabalho não-pago - que ela, como mulher, executa no lar. A espoliação ocorre também por meio da transferencia da renda que ocorre quando a garota entrega o salário para a mãe. A espoliação assume um caráter perverso quando ocorre no interior das relações familiares de domínio e opressão. A cena da mãe repreendendo a filha por ela comprar um vestido demonstra o desprezo que a mãe tem por ela e o desinteresse pelos carecimentos íntimos da garota.

 

 

A atmosfera do lar é uma atmosfera de monotonia só comparável à atmosfera monocórdica da fabrica. Na verdade, não se trata de um lar, mas tão-somente de uma casa onde a mãe e o padrasto costumam assistir ao noticiário de TV. Aliás, é pelos noticiários da TV que tomamos conhecimento da miséria social do mundo exterior - mundo de violência política. O filme expõe a conjuntura política mundial da virada histórica para a década de 1990 - o ano de 1989 foi marcado pela conjuntura turbulenta de inquietação social e política nos países do Leste Europeu a partir da Queda do Muro de Berlim e pela inquietação estudantil na China, com o Protesto na Praça da Paz Celestial em Pequim, reprimida com violência pelo Estado comunista. Enfim, trata-se de uma temporalidade histórica de ofensiva política e ideológica do capital visando desmontar enclaves sociais pós-revolucionários, ampliando o mercado mundial, constituindo (e elevando) a dominação do capitalismo global num novo patamar histórico: a era da globalização inaugurada efetivamente na década de 1990. O filme de Kauriusmaki expõe o mundo social de Iris - mundo da exploração e espoliação do capital - como uma extensão perene do mundo politico do Estado de exceção, mundo da desrazão historica. Enfim, mundo da barbárie social. O único momento em que Iris encontra espaço para desenvolver seus carecimentos humanos é o momento da balada noturna, espaço de lazer, tempo disponível para sonhar (ou cultivar a esperança) de encontrar um par masculino.

 

 

Certa noite, na balada noturna, um homem (Aarne) aproxima-se de Iris, convidando-a para dançar e beber. Ela aceita. Enfim, entrega-se a ele - é o que supomos pela cena seguinte. Após a noite de prazer, a garota, ainda deitada na cama, acorda sozinha e percebe que Aarne saiu e deixou uma quantia de dinheiro para ela. A mera presença do dinheiro expôs o caráter fetichizado da relação amorosa ocorrida entre os dois. O dinheiro revelou para Iris o segredo da farsa amorosa: o homem, tal como o capitalista da fabrica de caixas de fósforo, alugou o tempo de vida da garota para sua fruição egoísta. Mas o dinheiro expôs também a diferença radical de expectativas entre Iris e Aarne. Para ela, a noite de prazer significou amor e a garota alimentou o sonho da utopia amorosa - talvez por isso ela tenha se entregado. Entretanto, para ele, foi apenas uma noite de sexo - e ele estava apenas pagando pelos serviços sexuais. Ao alimentar em Iris expectativas de namoro e frustra-la, Aarne roubou ou espoliou seus sonhos de realização amorosa. Nesse caso, a espoliação da garota ocorreu não pelo roubo de valores monetários (que representam tempo de trabalho), tal como, por exemplo, ocorreu quando a família alienou-a do salário; mas a espoliação efetivou-se pela alienação dos sonhos de utopia amorosa (que representam tempo de vida).

O que o filme de Kauriusmaki nos expõe, pouco a pouco - pelo menos, desde a cena em que a mãe esbofeteia a filha por ela comprar um vestido com o próprio salário - é que há algo de podre no mundo social da garota da fabrica de caixa de fósforos. Tal como como um filme de terror, compõe-se pouco a pouco, na narrativa filmica, a liturgia do grotesco. Verificamos que a espoliação da garota ocorre não apenas na relação familiar, mas também nas relações amorosas. Na verdade, no mundo do capital, o risco de espoliação está presente nas relações sociais humanas (e instrumentais) da vida cotidiana.

O mundo do capital esvazia o sentido humano das relações de afetividade na família e entre os casais. O capital aliena, por meio da espoliação, posta como extensão das relações de exploração, não apenas o tempo de trabalho, que se interverte em trabalho não-pago ou trabalho alienado no sentido da pulsao da renda salarial, mas aliena também o tempo de vida no sentido da frustração de expectativas/anseios de realização humana. O fetichismo da mercadoria como fenômeno social sistêmico contribui para a corrosão da ação comunicativa e o desenvolvimento de estratégias de manipulação ente os agente sociais, ampliando, deste modo, as possibilidades de frustração de expectativas/anseios existenciais.

 

 

Nessas circunstâncias, Aarne alerta Iris que não tem interesse no namoro. Talvez o momento de frustração afetiva da garota tivesse apenas alcançado um status de mera decepção amorosa ou experiência cotidiana fortuita no mundo da manipulação social, se não ocorresse um fato crucial no plano da ontologia da vida cotidiana - pelo menos para uma mulher: Iris ficou grávida. A garota procura Aarne para comunica-lo da gravidez: ela vai ter um filho dele. Ele não será apenas um homem que a seduziu por uma noite, mas será também o pai do filho dela. Iris escreve uma carta e lhe entrega. Entretanto, frio e indiferente, Aarne responde com outra carta, dizendo que ela deve abortar o filho (a dificuldade de ação comunicativa - diálogo face-to-face - é flagrante). A atitude de Aarne demonstra desprezo não apenas por Iris como mulher-mãe, mas indiferença pela criança fruto daquela noite de expectativa amorosa - pelo menos da parte de Iris.

Diante da atitude grotesca de Aarne, Iris se transtorna, sentindo-se espoliada não apenas nos sonhos de realização amorosa, mas alienada como mulher-mãe. A espoliação no mundo da exploração do capital destroça a pessoa humana. Ao mesmo tempo, ao saber que a filha engravidou, os pais decidem expulsa-lá de casa. Enfim, renegada pelos seus entes queridos (pais espoliadores) e desprezada pelo pai de seu filho (amante espoliador), Iris, a garota da fabrica de caixa de fósforo, é acolhida por um amigo em seu pequeno apartamento. Explorada e espoliada, a garota não possui mais, nem espaço próprio de reprodução social: uma casa como espaço para si.

Finalmente, Iris decide algo inusitado: eliminar os agentes da espoliação utilizando...veneno de rato. É curioso a escolha de veneno de rato para eliminar os agentes da espoliação - o que o filme de Kauriusmaki sugere é que eles são ratos humanos que devoram a riqueza de trabalhadoras e trabalhadoras - riqueza humana expropriada, não apenas do tempo de trabalho, mas também do tempo de vida. Finalmente, a garota da fabrica de caixas de fósforo os envenena. Na ultima cena do filme, a policia vem busca-lá na fabrica.

Apesar do filme de Kauriusmaki expor, logo de inicio, o espaço da produção, com cenas do interior da fabrica de caixas de fósforo, o que, de fato, provoca a diruptividade da narrativa, com o estranhamento da garota em sua imediaticidade cotidiana, é o espaço da reprodução social, lugar de operação das relações sociais instrumentais do capital a serviço da espoliação humana. O filme de Kauriusmaki não contesta as relações sociais de exploração, postas em sua naturalidade fetichizada, elemento pressuposto da reprodução social do capital. Iris, a garota da fabrica de caixas de fósforo - o próprio título incorpora a naturalização do elemento de exploração - submete-se em si e para si, à pseudo-concreticidade da vida cotidiana. No filme, Iris é apenas uma garota...da fabrica de caixas de fósforo. Não se põe no filme, o em-si da classe, mas tão-somente o em-si da individualidade pessoal de “classe" imersa na condição de proletariedade.

Ao mesmo tempo, como condição existencial das individualidades pessoais de “classe", Iris esta subsumida à reprodução social estranhada, caracterizada pela espoliação de sua riqueza humano-afetiva. Em ultima instância, a espoliação se constitui como elemento compositivo (e derivado) da exploração de classe. Portanto, embora não apareça de imediato, a situação de exploração, esta presente virtualmente na situação de espoliação humana que caracteriza a vida cotidiana da garota da fabrica.

 


É claro que nem todas as garotas da fabrica de caixas de fósforo são Iris e vivem, do mesmo modo, a situação de espoliação humana da garota do filme; existe um traço único de singularidade pessoal no drama humano de Iris. Esta é a dimensão da singularidade do homem singular. Entretanto, o drama humano-singular de Iris possui uma dimensão de tipicidade trágica que decorre de sua expressão de universalidade concreta. O que significa que, o destino trágico da garota da fabrica trata-se efetivimante de uma singularidade pessoal típica que expõe, em si e para si, dimensões candentes da universalidade da condição existencial de proletariedade.

Alguns aspectos simbólicos da narrativa de Kauriusmaki: Iris trabalha numa fabrica de caixas de fósforo. A figura da caixa de fósforo - composta por palitos de fosforo - significa conter algo que dá a luz (por exemplo a marca de uma caixa de fósforo no Brasil denomina-se Fiat Lux). Entretanto, ironicamente a garota da fabrica de caixas de fósforo vive num mundo de trevas humanas. Ao mesmo tempo, a reviravolta na vida da garota ocorre quando ela decide dar a luz ao bebe. Fiat lux!

Iris percorre um caminho trágico que, aos poucos, a faz enxergar a natureza dos familiares e de homens canalhas, verdadeiros agentes da espoliação humana. O que significa que, diferentemente do grotesco, a tragédia possui um sentido de lucidez ou desvelamento crucial. Foi um momento de desmascaramento de homens e mulheres. Na verdade, o filme de Aki Kauriusmaki expõe um tempo de barbárie social onde a exploração da força de trabalho visando extrair mais-valia articula-se com a espoliação humana em seus múltiplos significados: espoliação como transferencia de recursos cognitivos e salariais e espoliação humana como frustração de afetos e expectativas de realização pessoal e afetiva. Inclusive a “captura" da subjetividade do trabalho vivo pelo capital é um recurso de espoliação humana. Tempos de barbárie social são tempos de degradação humana onde o capital explicita-se não apenas como categoria econômica - movimento de autovalorização do valor - mas também como categoria social - sistema de controle estranhado do metabolismo social.

O filme de Kauriusmaki é um drama sobre a opressão humana nas coisas sutis da vida cotidiana. Muitas vezes, a espoliação humana assume forma fetichizada, caracterizando-se como modo intransparente de opressão social. Devido o fetichismo da mercadoria, a falta de reconhecimento e a degradação da pessoa humana que ocorre nos meandros das relações interpessoais da vida cotidiana - nos espaços públicos ou privados - não é percebida como opressão humana de classe. A individualização da perversidade oculta seu caráter social de classe.

É sintomático que os pais de Iris, numa cena do filme, assistam no noticiário da TV, a cobertura da repressão do Exercito chinês à manifestação estudantil na Praça da Paz Celestial em Pequim em 1989. Durante alguns segundos, acompanhamos a cena de um jovem manifestante solitário diante do tanque de guerra do Exército Popular da China. Aquela cena de repressão brutal a manifestação juvenil, expõe a opressão política exercida pelo regime comunista chinês contra dissidentes. Naquele caso, trata-se de opressão política que contribui para manter um sistema social do capital baseado, não apenas na exploração, mas na espoliação humana, tal como o capitalismo ocidental.

A cena do noticiário mostrou que o mundo social da garota é o mundo social da opressão política - e da resistência popular. É luta de classes na dimensão da luta contra a opressão politica do capital. Enfim, trata-se de um mundo social de luta contra a opressão política, que nesse caso, assume um caráter transparente. Diferentemente da opressão humana que permeia o cotidiano da vida social no capitalismo, sociedade da exploração e espoliação, a opressão do Estado político do capital é objetivamente transparente. O agressor que vilipendia direitos esta ali, claro e provocador. É o regime político opressor e seus aparatos de guerra contra manifestações sociais. O Estado político do capital é a forma clássico de sujeito da espoliação. Como persona do capital, o Estado político possui como cerne essencial, a voracidade da espoliação - ele espolia com recurso à força da lei e muitos vezes, obliterando direitos.

Por outro lado, o mundo social de Iris é também o mundo social das democracias ocidentais capitalistas, onde perduram pequenas formas de opressão humana no âmbito da circulação da sociedade civil, caracterizando, deste modo, a espoliação sutil e intransparente contida nos interstícios da vida cotidiana e nas relações humanas privadas. A espoliação exercida pelos agenters sociais como indivíduos humanos estranhados movidos pelos suas intencionalidades egoístas é um modo degradado do padrão de sociabilidade. Mais do que nunca, a espoliação esta contida no modo de sociabilidade capitalista e que hoje, nas condições do capitalismo manipulatório, aparece como barbárie social. Os indivíduos humanos reproduzem nas relações sociais instrumentais, o ethos da espoliação - cerne essencial do Estado político do capital e determinação reflexiva da exploração da força de trabalho na qual se sustenta o modo de produção capitalista.

No capitalismo global do século XXI, Estado político e empresa capitalista são hoje os dois entes da espoliação da existência humana por meio de relações políticas de opressão no controle da vida social e por meio das relações sociais nos locais de trabalho. No caso do Estado político, como salientamos acima - a espoliação é clara e transparente, oriunda da natureza do próprio estranhamento (em contraste por exemplo, com o fetichismo da mercadoria).

No caso da empresa capitalista, nas condições dos novos métodos de gestão toyotista, exploração e espoliação combinam-se hoje mais do que nunca, no processo de valorização do valor, assumindo, no caso da espoliação nos locais dde trabalho e na própria vida cotidiana, dimensão intransparente e fetichizada (com uma sutileza inaudita tendo em vista que, nesse caso, espoliação nao aparece, muitas vezes, como opressão e dominação de classe, mas como ... assédio moral).

Estas duas formas institucionais de espoliação organizada pelo capital - no âmbito do Estado politico e do mercado (empresas capitalistas)- combinam-se com as formas microsociais de espoliação - a espoliação humana na vida cotidiana e nas relações interpessoais - compondo, deste modo, o cenário complexo da barbárie social. Este é o mundo social da garota da fabrica de caixas de fósforo em sua forma plena. Entretanto, as formas de resistência como modo de respostas humanas à barbarie social, aparecem no plano da contingência. Por exemplo, na política, com as manifestações coletivas; e no caso da vida cotidiana, muitas vezes, saídas irracionais, tal como o apelo inaudito à criminalidade - é o que fez Iris ao adicionar veneno de rato na bebida de seus agentes espoliadores (familia e amante).

 


Giovanni Alves (2014)